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Eleições 2018

Jair Bolsonaro e a ascensão da extrema-direita nas eleições do Brasil


Jair Bolsonaro e a ascensão da extrema-direita nas eleições do Brasil - Gente de Opinião

O candidato às presidências do Brasil pelo Partido Social Liberal (PSL), Jair Bolsonaro, lidera as intenções de voto dos brasileiros, apesar de ser o político que mais polémicas acumula, naquela que é considerada a eleição mais atípica dos últimos anos.

Com a proibição da candidatura do ex-Presidente Luís Inácio Lula da Silva, que teve o registo eleitoral negado no final de agosto pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o candidato de extrema-direita Jair Bolsonaro tornou-se no líder da corrida presidencial do Brasil, mas foi o esfaqueamento que sofreu, durante um ato de campanha em Minas Gerais, que lhe consolidou o protagonismo, quer no Brasil, quer internacionalmente.

Nas primeiras sondagens realizadas logo após o ataque, Bolsonaro atingiu 30% das intenções de voto, com um aumento de quatro pontos percentuais em relação ao resultado anterior.

Internado em estado grave e sujeito a duas cirurgias, Bolsonaro viu-se impedido de continuar a campanha eleitoral, sendo substituído no terreno pelos seus dois filhos, o deputado federal Eduardo Bolsonaro e o deputado estadual Flávio Bolsonaro.

No entanto, se as sondagens mostram uma subida nas intenções de voto do candidato, também a percentagem de rejeição subiu, atingindo os 51%, enquanto na semana anterior ao ataque rondava os 44%.

A elevada percentagem de rejeição que o candidado do PSL obtém, deve-se, em grande parte, ao seu histórico de polémicas.

Chamado de “mito” e “herói” pelos seus apoiantes e de “perigo à democracia” por críticos e adversários, Jair Bolsonaro, de 62 anos, está na política brasileira há 28 anos e foi eleito deputado (membro da câmara baixa) sete vezes consecutivas, mas sem nunca ter ocupado um cargo importante no Parlamento.

Capitão do exército reformado e defensor da ditadura militar -- regime que vigorou no Brasil entre 1964 e 1985 -, Bolsonaro iniciou a carreira política como uma figura caricata de posições extremas e discursos agressivos em defesa da autoridade do Estado e dos valores da família cristã. Ganhou notoriedade nos últimos anos e transformou-se num líder capaz de mobilizar milhares de eleitores desiludidos com a mais severa recessão económica da história do Brasil, que eclodiu entre os anos de 2015 e 2016, ao mesmo tempo em que as lideranças políticas tradicionais do país tem sido envolvidas em escândalos de corrupção.

Para Esther Solano, a cientista social e professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), a ascensão de Bolsonaro e do discurso da extrema-direita no Brasil é fruto da junção de elementos externos e internos.

“A ascensão do Bolsonaro não é só um fenómeno nacional. Estamos vendo o crescimento da extrema-direita no mundo todo, na Europa, nos Estados Unidos onde [a extrema direita] tem tido maior expressão (...) [Assim como alguns líderes estrangeiros], o Bolsonaro se alimentou do discurso antipolítico para apresentar-se como homem honesto, um candidato da ética, que é contra o sistema corrompido”, explicou.

Autora de uma pesquisa chamada “Crise da Democracia e extremismos de direita” da fundação alemã Friedrich-Ebert-Stiftung, Esther Solano acrescentou que além do sentimento de desilusão popular em relação à política, Bolsonaro tem a seu favor a capacidade de se comunicar de forma simples e direta, e de ser facilmente compreendido por diferentes camadas da população.

Wagner Romão, professor e membro do Observatório Eleitoral da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), avaliou que a candidatura de Bolsonaro responde aos anseios de grupos conservadores, que possuem um sentimento geral contra a classe política e valores antiprogressistas.

“Há todo um campo de pessoas que se revolta contra as medidas liberais nos costumes como o avanço dos direitos sexuais, raciais e a defesa da cultura indígena que o Brasil experimentou nos últimos anos”, explicou.

“Estas pessoas, antes, apoiavam o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) -- moderado -, mas acabaram deslocando-se para o campo da extrema-direita em torno da candidatura do Bolsonaro”, disse o professor da Unicamp.

“Desde 1989 sempre tivemos candidatos de extrema-direita nas eleições presidenciais do Brasil. No entanto, [no geral] os candidatos com força eleitoral não rompiam o pacto civilizatório e não eram abertamente contra os direitos humanos. O Bolsonaro extrapolou este patamar e [com ele] temos uma candidatura cheia de preconceitos e de ataques aos direitos fundamentais”, acrescentou.

Para os pesquisadores consultados pela Lusa, outro fator que explica o apoio a um candidato cujo discurso vai contra os preceitos da democracia é alta aceitação de discursos autoritários entre a população brasileira.

Um estudo designado “Medo da Violência e Autoritarismo no Brasil”, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), publicado no ano passado, indicou que numa escala de 0 a 10 a sociedade brasileira atinge o índice de 8,1 na propensão a endossar posições autoritárias.

Na sua campanha presidencial, Bolsonaro defende os valores tradicionais da família cristã, o porte de armas e ‘prega’ que o combate à violência no Brasil, país que atingiu a marca de 63.800 homicídios em 2017, deve ser feito de forma violenta pelas autoridades das polícias.

Entre as suas propostas mais polémicas para a área de segurança pública está a implantação de uma figura jurídica no sistema legal, que impediria homicídios cometidos por polícias em serviço de serem julgados criminalmente.

Além disso, o candidato a chefe de Estado brasileiro também declarou que se for eleito não vai aplicar recursos do Governo em instituições que atuam em defesa dos direitos humanos, afirmando ainda que pretende retirar o Brasil do Comité de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU).

Considerado uma pessoa polémica, que desperta paixões, ódios e controvérsia, Bolsonaro já foi condenado por injúria e apologia ao crime de violação após ter afirmado publicamente que uma colega parlamentar não merecia ser violada porque era muito feia.

A ofensa foi proferida contra a deputada Maria do Rosário após uma sessão na câmara baixa do Parlamento brasileiro, em 2003, quando, após uma discussão, Bolsonaro declarou que a deputada não merecia ser violada: “porque ela é muito feia, não faz meu género, jamais a violaria. Eu não sou violador, mas, se fosse, não iria violar porque não merece”.

Bolsonaro também foi acusado pela Procuradoria-Geral do Brasil de praticar o crime de racismo, em 2016, quando comparou descendentes de negros africanos que fugiram antes da abolição da escravidão e vivem em comunidades rurais demarcadas no interior do Brasil com animais.

O candidato que lidera as sondagens às presidenciais do Brasil também responde a um processo por declarações homofóbicas, feitas num programa de televisão e é investigado por suposta apologia ao crime de tortura.

A última acusação baseia-se na homenagem que fez ao coronel Brilhante Ustra, um reconhecido torturador brasileiro, no momento em que votava a favor da destituição da ex-presidente Dilma Rousseff, que anos antes de entrar para a política foi presa e torturada durante a ditadura militar.

Criado no dia 30 de agosto no Facebook, o grupo “Mulheres Unidas contra Bolsonaro”, atingiu, na madrugada de quarta-feira, um milhão de membros na rede social Facebook, segundo anunciou uma das líderes do movimento, citada pelo jornal brasileiro O Globo.

A grande adesão feminina acumulada num curto espaço de tempo mostra a rejeição que o candidato presidencial enfrenta entre eleitoras -- as mulheres representam 52% do eleitorado brasileiro.

Em declarações ao jornal, uma das líderes do movimento explicou que a intenção do grupo na rede social é criar uma representação contra o candidato Jair Bolsonaro e proteger e defender os direitos das mulheres.

Segundo a pesquisa divulgada na segunda-feira pelo instituto Datafolha, a rejeição de Bolsonaro entre o eleitorado feminino é de 49%

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