Terça-feira, 9 de junho de 2026 - 09h10

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva incorporou há um ano a soberania
no discurso político-eleitoral, nos últimos meses com reforço à suposta
proteção aos minerais críticos, dos quais fazem parte os Elementos de
Terras-Raras (ETR), integrados por mais de uma dezena de elementos químicos,
essenciais para a tecnologia moderna.
O Brasil, diz ele ultimamente, não abrirá mão de explorar esse tesouro,
o país “não cabe no quintal de ninguém,” ao vincular o interesse americano por
minerais críticos, e deve “utilizar suas próprias riquezas para desenvolver seu
território.” A tônica é: o Planalto
defende o país da exploração estrangeira.
Na real, é um discurso para desavisados sobre retóricas lulistas cujo
fim, em si mesmo, é tão somente preservar o poder. De novo e sempre. É de bom
tom que se diga: vem de longe, das gestões petistas anteriores, a omissão em
regulamentar a utilização dos minerais críticos, e recentemente o presidente e
militantes do PT acusaram indevidamente Ronaldo Caiado de vender Serra Verde,
mineradora de terras-raras de Minaçu (GO), para o controle dos Estados Unidos.
Jamais disseram, claro, que a empresa não é brasileira, nunca foi.
Jamais disseram que a transferência de titularidade é federal; concessão
de lavra é de competência federal e análise de capital estrangeiro em ativo
estratégico é federal. Assim é porque o subsolo é da União, diz a Constituição
Federal. Serra Verde terá uma pausa para desnudar, aqui, a outra ponta de
incompatibilidade das ações de gestão e de manejo fiscal com o discurso “Brasil
soberano.”
É o sucessivo corte de recursos na gestão Lula 3 da Agência Nacional de
Mineração (ANM), que na semana passada, pelo terceiro ano consecutivo, entrou
no bolo do contingenciamento de mais de R$ 20 bilhões que o governo fez em
diversas áreas.
Criada em 2017, a ANM até hoje não tem estrutura, recursos adequados e
tecnologia. Sua penúria, acentuada pelo histórico corte de recursos, basta para
desmascarar o populista “Brasil soberano.” Passou Michel Temer, Jair Bolsonaro
e vai passando Lula, todos sem compromisso genuíno com a proteção e
fortalecimento de um setor estratégico e mineração em geral, que tem
contribuição relevante para o PIB do país.
O agravante, no caso do PT, são os 20 anos de gestão central, esgrimindo
retóricas populistas sem correlação com qualquer iniciativa real e persistente
como deve convir às democracias para
mudar o quadro no setor minerário brasileiro.
Exemplos: não há no documento da equipe de transição de 2022 qualquer
projeto para exploração e utilização dos minerais críticos, um processo
complexo, caro e que exige alta capacitação e tecnologia, e no começo de 2025,
quando o ministro Fernando Haddad entregou à Câmara dos Deputados 25 propostas
legislativas prioritárias, a soberana omissão sobre regulamentar minerais
críticos lá estava.
Em nota publicada no dia 4 de junho em seu portal, a ANM disse que o
corte de orçamento (mais de R$ 20 milhões) imposto a agência “aprofunda um
processo contínuo de restrição de recursos que, ao longo dos anos, reduz a
capacidade operacional da instituição responsável pela regulação e fiscalização
da atividade mineral brasileira.”
A ANM disse que o planejamento de trabalho está profundamente afetado
para 2026. “Ao todo, 43 barragens e 18 pilhas de mineração que estavam
programadas para receber vistoria técnica da Agência até o final deste ano não
poderão ser fiscalizadas dentro do cronograma originalmente estabelecido caso o
atual cenário orçamentário seja mantido. Algumas dessas estruturas exigem
acompanhamento contínuo em razão de seu potencial impacto social, ambiental e
econômico, incluindo alguns localizados próximos a comunidades e áreas
ambientalmente sensíveis,” diz o texto.
E não é só. A lista de ações e atividades – ampliadas a partir da
aprovação de uma lei este ano - impactadas pela restrição orçamentária é
abrangente, e afeta a arrecadação e o combate à sonegação no setor. Algo que já
vem acontecendo em anos anteriores.
Em 2025, uma carta entregue pela direção da ANM aos integrantes do
núcleo duro do governo alertou para a paralisação total das atividades por
causa do corte de recursos, justo em um ano no qual os requerimentos de
pesquisa em minerais críticos registraram alta de 81% entre o volume requerido
no primeiro trimestre e o requerido no quarto trimestre.
Creio que nem mesmo a ocorrência (Deus nos livre) do rompimento de uma nova
Brumadinho torne a ANM prioridade institucional estratégica, com a correção de
procedimentos como desvios nas guias de mineração detectados pelo TCU e
fortalecimento das ações.
Em tempo: a mineradora Serra Verde, em Goiás, foi constituída em 2010
com capital integralmente estrangeiro - Denham Capital (Boston), Energy &
Minerals Group (Houston) e Vision Blue Resources (Reino Unido, do ex-CEO da
Xstrata Mick Davis). Não há fundador brasileiro, não há fundo nacional, revela
o portal Poder 360.
Naquele ano, a concessão de lavra explorada pela Serra Verde foi
outorgada pelo governo Lula 2 “sem qualquer condicionante de processamento em
solo brasileiro, sem limite à exportação de minério bruto, sem escrutínio sobre
a estrutura de capital estrangeiro.”
O portal Poder 360 corretamente diz mais: “O governo federal poderia ter
imposto essas salvaguardas. Não impôs. Também não houve, ao longo dos
diferentes governos, criação de uma política nacional robusta para verticalizar
a cadeia produtiva das terras-raras no Brasil, com exigências de beneficiamento
local, industrialização ou transferência tecnológica. Na prática, o país
permaneceu como exportador de matéria-prima mineral de baixo valor agregado.”
Em 2025, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDES) aprovou
empréstimos para apoio do empreendimento controlado por estrangeiros.
Vendida em abril de 2026 à USA Rare Earth por US$ 2,8 bilhões, a Serra
Verde trocou de controladores estrangeiros. Parte impressionante da mídia
brasileira disse no entanto que o governo de Goiás - com autoridade apenas para
promover licenciamento ambiental - autorizou a venda de uma empresa estratégica
brasileira, entregando o negócio para o capital dos Estados Unidos.
Uma fake news indetectável pelo STF.
O relato nesse Contraponto nos indica uma só coisa: Brasil Soberano é
expurgar em 2026 o lulopetismo da esfera pública nacional. Chega de manipulação
e mentira.
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