Porto Velho (RO) terça-feira, 17 de setembro de 2019
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Helder Caldeira

O Mal e o Mal


O Mal e o Mal - Gente de Opinião

HELDER CALDEIRA
 
Da noite para o dia o Brasil decidiu assumir uma espécie de maniqueísmo bushlesco, onde há uma turma que se autoproclama o Bem e que precisa, em nome da lei e da ordem, caçar e aniquilar a outra turma, o Mal. Enfrentar a criminalidade, pacificar territórios antes dominados por bandidos e acabar com a leniência e a acomodação que tomaram conta das políticas públicas no Rio de Janeiro nas últimas três décadas são ações prementes e o amplo apoio dado pela população é prova inconteste dessas necessidades. No entanto, não podemos perder de vista a objetividade e ficar iludidos com o infinito parlatório politiquês que teremos a partir de agora. Há divergências conceituais e políticas de grosso calibre nessa guerra urbana.

O combate ao crime organizado no Rio de Janeiro, e em todo território brasileiro, é um assunto muito delicado. Ultrapassa a fronteira das comunidades de Vila Cruzeiro e do Complexo do Alemão. Vai muito além das favelas. Nunca foi uma questão puramente social. É negócio. É comércio. E é lucrativo tanto para o dito Bem, quanto para o dito Mal. Por enquanto, estamos embalados pelas imagens “Tropa de Elite” de guerra urbana, transmitidas ao vivo. Daqui alguns dias, quando a poeira baixar e começar a faltar maconha, cocaína, crack e outras drogas para o crescente mercado consumidor do asfalto, vão sobrar especialistas analisando “com outros olhos” esse duelo entre Bem e Mal. Só o tempo nos mostrará como fica, a partir de agora, a divisão geopolítica da Cidade Maravilhosa. Quem ficará com o que, como e onde.

Vamos pensar em questões de ordem prática. Quem levará o “gatonet” à população do Complexo do Alemão? E quem continuará a facilitar as ligações clandestinas no sistema de eletricidade e que garantiam conta zero à comunidade no final de cada mês? Quem irá fornecer, gratuitamente, médico e remédios? Quem irá vender gás de cozinha e acesso à internet banda larga por menos da metade do preço praticado no mercado? O Estado diz ter dominado o território, mas será que sua população ficará satisfeita com a troca de “patrões”? Isso não quer dizer que a vida era boa antes. Muito pelo contrário. Mas, o que acontece hoje no Rio de Janeiro, terá efeito em curtíssimo prazo no bolso dos cidadãos que moram nessas comunidades e, como sabemos, os conceitos de bom e ruim, de Bem e Mal, vão sendo delineados ao sabor da subjetividade. E quanto mais essas definições afetam o bolso do cidadão, maior será sua reação, moral ou imoral. Legal ou ilegal.

A título de curiosidade histórica e para ilustrar essa questão da mudança de “ponto de vista” amplamente subjetiva, vamos a um exemplo interessante. Há exatos 100 anos, em 28 de novembro de 1910, o então presidente da República recém empossado, Hermes da Fonseca, decretava a expulsão de todos os insurgentes da Marinha que, cinco dias antes, liderados por João Cândido Felisberto, promoveram a Revolta dos Marinheiros e que, mais tarde, receberia o nome de Revolta da Chibata, chegando a apontar os canhões dos navios de guerra para a cidade do Rio de Janeiro. Os marinheiros foram presos e enviados em exílio para o extremo norte do Brasil, tal qual os bandidos de agora. Eram o Mal naquela época. Hoje são considerados heróis e João Cândido um mártir. Por ironia do destino (será mesmo?!), um século depois, é a mesma Marinha, com canhões apontados, quem se torna a grande protagonista do primeiro grande movimento das forças do Bem durante a tomada da Vila Cruzeiro. Conceitos de Bem e Mal vão se construindo e destruindo ao longo da história e isso é mais comum do que imaginamos.

O discurso de agora é o da não negociação com o Mal, sem diálogo com o crime. E concordo. Bandido é bandido e não há meio termo ou possibilidade de conversa. Mas vejamos um detalhe curioso: hoje, para entrar no Complexo do Alemão, foi necessária a união de todas as polícias do estado, somadas ao BOPE e até grande participação das Forças Armadas. No entanto, ontem, o presidente Lula, o governador Sérgio Cabral e a então pré-candidata Dilma Rousseff subiram tranquilamente até o ponto alto da comunidade para um comício disfarçado de inauguração de conclusão da primeira fase do teleférico, mesmo lugar onde, hoje, estão sendo hasteadas bandeiras como sinal de ocupação. Ou seja, entre um tempo e outro, alguém deve ter se aborrecido muito com alguma coisa e o Mal, com quem era possível fazer acordos e acertos para permitir o acesso ao presidente, ao governador e à sua candidata, tornou-se o Mal a ser extirpado sem qualquer conversa, com a faca nos dentes. Ou será que essa tomada de comunidades que estamos vendo faz parte de outros acordos e acertos com outras facções criminosas onde está em jogo a cessão desse território para uma nova configuração geopolítica a ser implementada?

É bem verdade que o Mal mostrou-se muito cafona, com neon vermelho e azul no teto e banheira de hidromassagem tropeçando na cama “queen size”. É verdade também que o pseudoluxo encontrado na casa do traficante Alex Polegar poderia ser confundido tranquilamente com as reformas, tão cafonas quanto, que deputados e senadores realizam em suas casas e apartamentos funcionais. O fato é que o dinheiro para financiar ambos os casos tem origem na mesma fonte: o bolso do cidadão. Uns faturam sobre o vício alheio e o tráfico nacional e internacional de drogas e armas; os outros bancam suas malandragens e regalias com o dinheiro dos impostos que pagamos e com o tráfico de influência. E onde que um bandido é melhor que o outro? Ambos são, indecentemente, criminosos. O Mal e o Mal. A lei e a ordem parecem ter atingido uma turma. Agora falta alcançar a outra.

FONTE: HELDER CALDEIRA
Escritor, Colunista Político, Palestrante e Conferencista
www.magnumpalestras.com.br – heldercaldeira@estadao.com.br

 

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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