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Frei Betto

Frei Betto é frade dominicano e escritor, autor de 57 livros editados, muitos deles traduzidos no exterior. Estudou jornalismo, antropologia, filosofia e teologia. É assessor de movimentos sociais. Recebeu vários prêmios, no Brasil e no exterior, por sua luta em prol dos direitos humanos. Ganhou também diversos prêmios literários, entre os quais o mais importante no Brasil: o Jabuti, em 1982 e em 2005; Juca Pato, quando foi eleito pela União Brasileira dos Escritores (UBE) Intelectual do Ano, em 1986; autor da Melhor Obra Infantojuvenil em 1998. twitter:@freibetto.

VIOLÊNCIA E DESIGUALDADE - Por Frei Betto

08/02/2018 - [20:54] - Opinião


Frei Betto

Pelo menos quatro pessoas morrem assassinadas na América Latina a cada 15 minutos, de acordo com informe recente do Banco Mundial. Embora haja redução da pobreza e das desigualdades nos últimos anos, isso não influi na diminuição da criminalidade.

Dos dez países mais violentos do mundo, oito são latino-americanos, assim como 42 das 50 cidades mais afetadas pela criminalidade. A taxa de homicídios no nosso Continente é de 23,9 mortos a cada 100 mil habitantes, a mais alta do mundo. Entre os jovens de 15 a 24 anos, o índice sobe para 92 em cada 100 mil habitantes, mais de quatro vezes a taxa média. No Brasil, há 47 mil homicídios por ano!

Segundo o Banco Mundial, isso se deve ao aumento do tráfico de drogas e do crime organizado; de falhas do sistema judiciário e da impunidade; e da falta de melhor educação e oportunidades de trabalho para os jovens de famílias de baixa renda.

Para enfrentar esse quadro dramático, o banco recomenda a construção de “um tecido social mais inclusivo com maior igualdade de oportunidades”; a implementação de políticas preventivas, com redução dos índices de evasão escolar; e a ampliação da oferta de empregos de qualidade.

O Banco Mundial não se pergunta, em seu relatório, as causas dessa situação. Pesam, evidentemente, o pouco investimento do poder público em educação de qualidade, a corrupção dos políticos e a despolitização da sociedade. Na lógica neoliberal, toda pessoa de “sucesso na vida” é resultado de seu próprio esforço. Ora, isso equivale a esperar que mil alpinistas alcancem, na mesma semana, o pico do Monte Everest, o mais alto do mundo.

É o sistema capitalista, com a sua apropriação privada da riqueza produzida pela sociedade, o grande responsável pela exclusão e desigualdades sociais. Para que uma pessoa atinja o topo da escola social, outros milhares são alijados das oportunidades.

Dos 15 países mais desiguais do mundo, 10 são latino-americanos, nesta ordem: Bolívia, Haiti, Brasil, Equador, Honduras, Panamá, Paraguai, Chile, Colômbia e Guatemala. Entre os países do G20, o Brasil é o mais desigual. Basta dizer que os 10% mais ricos da população ficam com 60%.

Os lucros das empresas, que representam 6% da renda nacional, cresceram 231% entre 2000 e 2015. A JBS que o diga! E isso graças à generosidade do Estado que, via BNDES, canalizou muitos recursos para a iniciativa privada cobrando juros irrisórios. Em outras palavras, o pobre povo brasileiro financiou a multiplicação da fortuna dos ricos.

Enquanto o Brasil não passar por uma profunda reforma tributária a desigualdade social só tende a aumentar. O economista Rodolfo Hoffmann calcula, baseado em dados do Pnad 2015, que a disparidade de renda no Brasil cairia 23% se todos pagassem Imposto de Renda de acordo com as alíquotas em vigor, sem deduções, e os recursos arrecadados fossem canalizados para beneficiar os segmentos mais pobres da população. A queda seria de 27% se fosse criada uma alíquota de 40% de Imposto de Renda para quem ganha mais de R$ 7 mil mensais. E ainda seria maior essa redução se o imposto fosse progressivo, taxando a renda e o patrimônio dos 10% mais ricos.

Mas cadê governo para ousar governar democraticamente, ou seja, a favor da maioria do povo brasileiro?


Frei Betto é escritor, autor de “Paraíso perdido – viagens ao mundo socialista” (Rocco), entre outros livros.

Copyright 2016 – FREI BETTO – Favor não divulgar este artigo sem autorização do autor. Se desejar divulgá-los ou publicá-los em qualquer  meio de comunicação, eletrônico ou impresso, entre em contato para fazer uma assinatura anual. – MHGPAL – Agência Literária (mhgpal@gmail.comhttp://www.freibetto.org/>    twitter:@freibetto
 


Comentários

  • Sebastião Farias - 10/02/2018

    O nosso comentário sobre esta matéria do autor, bem escrita, bem informativa e muito instrutiva para os cidadãos do Brasil, nos permite, para sua melhor compreensão e confiança na intervenção de Deus, na solução dos problemas brasileiros atuais, assim como Ele atendeu o pedido de socorro do Profeta hebreu Habacuc, a cerca de 2.600 anos atrás. O motivo de sua indignação, foi assistir o sofrimento continuado do povo de seu país, causado por opressão violenta e injustiça, praticados pelos governantes, ricos e religiosos da época, contra o resto da população do país. As comparações com nossa realidade e semelhanças podem ser feitas e comprovadas, após plena leitura do texto, que reproduzimos abaixo, como contribuição à informação, à tomada de atitude por cada cidadão e principalmente, depositar em Deus a sua fé na vitória final que virá. Acredite e aja, o Brasil precisa da unidade de todos para sua transformação. Vejam: “O JUSTO VIVERÁ POR SUA FIDELIDADE Fonte: http://www.paulus.com.br/biblia-pastoral/_PUB.HTM Introdução O profeta Habacuc inicia o livro interrogando a Deus e pedindo socorro, pois está cansado de ver o seu país sofrer opressão violenta, onde a Lei enfraquece e o direito está distorcido (1,2-4). A resposta de Deus é a intervenção de um grande império, que deveria corrigir os desmandos (1,5-10). Isso, porém, não satisfaz o profeta, pois o invasor não vem para fazer justiça, mas para substituir uma opressão por outra pior (1,12-17). Habacuc continua esperando uma resposta satisfatória de Deus. A resposta definitiva é dada, agora, com uma proposta diferente, mais difícil, que exige paciência, mas que não falha: «O justo viverá por sua fidelidade» (2,4). Com isso, os que sofrem as conseqüências da violência são chamados a ser agentes na história, opondo-se firmemente aos que não são corretos. Tal acontecerá somente se esse grupo for fiel ao projeto de Deus; se estiver permanentemente vigilante na realização da justiça. No momento em que os injustiçados se descobrem não só como vítimas, mas principalmente como agentes de uma transformação na história, surgem a possibilidade e a coragem de desmascarar os opressores. Esse desmascaramento se realiza através da desmistificação de sua potência, até chegar ao cerne de sua fraqueza: são adoradores de ídolos mudos e inertes, que não podem vir socorrê-los no momento crucial. Descobrindo a fraqueza do opressor, é possível celebrar a sua queda e o surgimento de uma nova era, de um mundo novo. É a celebração do justo, «em tom de lamentação», cheia de estremecimentos e temores, porém com uma certeza: a justiça um dia se tornará realidade, porque o Deus dos justos é o Deus vivo que age na história (3,1-19).”

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