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Colaborador do Gentedeopinião, ZEKATRACA é titular da coluna Lenha na Fogueira no jornal Diário da Amazônia. E-mail: zekatracasantos@gmail.com

03/11/2007 - 15:19

As quatro portas do Mercado Municipal
Zizi e o Prefeito Roberto Sobrinho na cerimônia de assinatura da restauração do Mercado MunicipalO prefeito de Porto Velho em solenidade simples, no Bar­ do Zizi, assinou no último dia 26 de outubro, a Ordem de Serviço que autoriza o início da construção e revitalização do prédio onde funcionou o Mercado Público Munici­pal. O prédio fica no quadrilátero formado pelas ruas Henrique Dias, Travessa Renato Medeiros, Av. Presidente Dutra e José de Alen­car.
A história da construção do Mercado Mu­nicipal é cheia de percalços. Basta lembrar que sua edificação começou graças a uma pendenga entre o Superintendente (prefeito) Major Fernando Guapindaia de Souza Bre­jense e a administração da Madeira-Mamo­ré Railway Co.  Quando Joaquim Augusto Tanajura assumiu a superintendência con­denou a obra, aí vemos que já naquele tem­po, nossos políticos tinham a mania de des­fazer o que seus opositores haviam iniciado, só para ficarem com os louros de assinarem como sendo suas, as obras da cidade. Tana­jura não conseguiu o apoio da população para por em prática sua idéia e então abandonou a construção que ficou totalmente paralisada (igualzinho a obra do teatro) por vários anos e com certeza, a área da cons­trução foi tomada pelo matagal. Anos de­pois, já em seu segundo mandato (1923) Tanajura conseguiu seu intento e mandou demolir o que Guapindaia havia construí­do, e ao retomar a construção Tanajura não conseguiu nem terminar os alicerces da obra.
Para encurtar nossa conversa, o Merca­do Público Municipal de Porto Velho só foi concluído em 1950, na gestão do prefeito Ruy Brasil Catanhede, justamente no ano que perdi meu pai. No ano seguinte já morando em Porto Velho e ajudando minha mãe na "banca" que ela tinha na feira li­vre, que era montada, entre quinta feira e sábado, justamente em frente ao Mercado Municipal ali onde hoje fica a Praça Getú­lio Vargas passei a freqüentar o Mercado e conhecer as pessoas que dependiam do seu funcionamento.

Mercado Central de Porto Velho em 1950


Nossa intenção nessa matéria, é falar sobre as Quatro Portas principais, de entra­da e saída que existiam no prédio do nosso Mercado Público Municipal.
A BANCA DE JORNAL DO SEU BARROSO
Pelo lado da hoje Travessa Renato Me­deiros ou pela porta que ficava para o lado do palácio do governo, existia a Banca de Jornal do "seu" Barroso que por algum tem­po só vendia o jornal Alto Madeira. Ali se reuniam nas manhãs de domingo e até em dias de semana, os chamados "categas" me­tidos a intelectuais, para discutir as notícias publicadas no jornal.
Entrando mais um pouco, deparávamos, com a "Banca" do Boy onde a gente podia degustar deliciosas iguarias como mingau de milho (mungunzá), tapioca, pamonha e é claro aquele café com leite (in natura) a famosa média, Boy era marido da famosa tacacazeira dona Chiquinha.
No espaço a direita dessa porta, ficavam as "bancas" dos verdureiros. Prédio do Banco da Borrcha
Pelo lado de fora do mercado que ficava no rumo da José de Alencar tinha o Caldo de Cana do J Lima (a famosa saltenha só começou a ser produzida muito depois). Pro lado do Banco da Borracha, ficava a taber­na do Zé Curica, o Zizi e a boutique "Viadi­nho de Ouro" do Zé Carlos Lobo. Na esqui­na da Renato Medeiros com a José de Alen­car existiu também a lanchonete do "seu" João (aquele que até bem pouco tempo ti­nha um lanche no terreno da Casa de Cultu­ra).
A BANDA DE MIÚDO DO BODÓ
Pela porta da Presidente Dutra, tinha o açougue do Bodó. Esse açougue era especi­al, porque só vendia "miúdo" de boi, fígado, bobó, rim, coração, tripa grossa, tripas fina, livro, mocotó e carne morta. O interessante é que naquele tempo, era praticamente im­possível se comprar um quilo de fígado, ou um coração inteiro. Bodó e o outro açougueiro conhecido como Faca Cega, só ven­dia a famosa "misturada". Um quilo de "mis­turada" era composto por um pedacinho de cada parte do miúdo, ou seja, um pedacinho de fígado, um pedacinho de coração, um pedacinho de rim, um pedacinho de car­ne morta e um pedação de bobó. Vale sali­entar, que esse açougue só funcionava à tar­de.  Para se conseguir uma "panelada" completa (mocotó, tripa fina, tripa grossa, bu­cho e o livro), era complicado, era um pou­quinho de cada coisa também, essa prática era para que o Bodó e o Faca Cega atendes­sem maior número de fregueses.
Pelo lado direito de quem entrava por essa porta, foi instalado o primeiro frigorí­fico de Porto Velho. Seguindo no rumo da Henrique Dias tinha a Casa Rio Madeira cuja especialidade era a venda de matéria de caça e pesca (no dia do incêndio ninguém conseguia encostar com tanta bala disparan­do). No rumo do palácio depois do açougue do Bodó tinha uma barbearia (onde hoje está lanchonete Gostosa) e uma alfaiataria.
Há! Era em frente a essa porta, que fica­va o carro de mingau do DEGA. O Dega che­gava ao ponto, por volta das cinco horas .da madrugada com sua "banca" ambulante puxado por um boi.

Mercado Municipal em 1950

A PORTA DO ZÉ RISADA
A Porta da Henrique Dias - Desse lado também aos domingos e até em dias de se­mana, encontrávamos muitos "categas" na taberna do seu Elias Ribeiro ou na taberna do seu Luiz tomando uma cachacinha ou apenas batendo papo. Da entrada dessa porta se ouvia as gargalhada do seu Zé Risada. No espaço onde ficava o comercio do Zé Risada ficavam os boxes onde se comerci­alizavam secos e molhados. O Zé Risada se destacava dos demais, justamente, pelo bom humor ou pelas risadas escandalosas que eram ouvidas em todo o Mercado.
Em frente a essa porta, do outro lado da rua, ficava o comercio do seu Tufic Matny onde os funcionários do governo territorial compravam "fiado".  Seguindo pelo lado do mercado ainda pela Rua Henrique Dias no rumo da José de Alencar, existia o sapateiro (consertador de sapatos) boliviano José Ca­macho que depois passou a vender Gás em botija e bicicleta Monark e transformou-se num grande empresário. Pro lado da Presi­dente Dutra, bem na esquina, tinha o "seu" Wilson da Motorista cuja especialidade era a compra de sucata, (vendi muito alumínio, metal e cobre pro seu Wilson). Na esquina da Henrique com a José de Alencar era o comercio de José Oceano Alves cuja especi­alidade era a compra de produtos regionais como couro de animais silvestres, borracha, ipecacoanha, sova e outros.
Foi justamente por esse lado do merca­do, que segundo dizem, começou o incên­dio.
A PORTA DO PONTO CAÇULA
Essa era como se fosse à entrada princi­pal do mercado. Ficava pela José de Alen­car e era justamente a porta onde se forma­va a famosa "fila da carne" (depois vamos falar sobre essa fila).
Então na entrada dessa porta existia o famoso "Ponto Caçula" sabem de quem era esse co­mércio, era justamente do seu Pedro Pacheco Dias um dos donos da Casa Saudade. Seu Pe­drinho como era conhe­cido foi um dos comer­ciantes mais queridos do Mercado Municipal, pela maneira como re­cebia seus clientes, do Ponto Caçula ele conseguiu os recursos para construir o Bar do Canto (Carlos Gomes com Julio de Castilho) o Bar mais antigo de Porto Velho. Logo a direita de quem entrava por essa porta fica­va o espaço onde se vendia peixe e mais al­guns boxes com secos e molhados. No espa­ço do lado esquerdo ficavam as bancas ou açougues onde se vendia carne verde (carne de boi).  Como podemos notar, o ponto caçula erapraticamente o único ponto nesse corredor de entrada onde se comercializa­vam os chamados secos e molhados.  Yedda  Bozarcobv na obra "Porto Velho - Cem anos de História 1907 - 2007" escreve: " ... O pa­vilhão destinado à comercialização de car­ne verde possuía quatro portais, piso de mo­saico em duas em duas cores e as paredes eram revestidas com azulejos brancos numa altura de 1,80 m ... ".
Pelo de fora no sentido palácio do gover­no tinha a Casa Girão de José Girão Macha­do cuja especialidade era a venda de armas de fogo (revolveres, espingardas, rifles etc.) além de munição (aí também o estampido de balas foi destaque durante o incêndio. O Cabo Piaba se transformou em herói justa­mente com o soldado·Sebastião ao enfren­tar o fogo e as balas na tentativa de conter as chamas), do outro lado da rua no hoje edifício do INSS tinha a Agencia da empre­sa aérea Cruzeiro do Sul o prédio era conhe­cido como "Prédio do Bechara" e a loja da família Chaquiam.
A FILA DA CARNE
Naquele tempo, ou seja, até o fogo des­truir o Mercado Municipal, os magarefes tra­ziam boi da Bolívia através da Estrada de Ferro Madeira Mamoré e abatiam no curre que ficava onde hoje está à sede da escola de samba "Pobres do Caiari" nas proximida­des da Assembléia Legislativa no bairro Arigolândia.  Acontece que o abate de boi não acontecia todo dia, muitas vezes, ou na maioria das vezes, os bois abatidos não da­vam para abastecer nem a metade da popu­lação, assim os moradores de Porto Velho, para conseguir um quilo de carne verde ti­nham que enfrentar a "Fila da Carne".  Para garantir o seu pedaço de carne, a popula­ção se deslocava para o Mercado por volta da meia noite e deixava a Cesta ou a Sacola marcando o seu lugar na Fila da Carne, por volta das cinco horas da madrugada volta­va ao Mercado para assumir seu lugar, mui­tos dormiam na Fila da Carne para não perder o lugar. Ao chegar à beira da "Pedra­” era outra luta para conseguir ser atendido pelo açougueiro.  Acontece que a posição na fila não garantia o atendimento por parte do açougueiro. Quando a gente via, chegava um 'catega" ou seu empregado e recebia. do açougueiro (sob protesto) uma cesta cheia de carne.
Outro detalhe, naquele tempo não tinha esse negócio de carne de 10 fosse trazeira ou dianteira era vendida pelo mesmo preço mais não tinha essa de carne sem osso, era tudo com osso.  Acontece que a carne era ­escassa que quando uma pessoa conseguia comprar um pedaço saia festejando.  Muitos passavam a noite na Fila e não conseguiam nenhum pedaço de carne. As discussões eram freqüentes e até chegavam às vias de fato.
Senador Valdir Rauup, Deputada Marinha Raupp, Zizi e Prefeito R.Sobrinho de costas olhando a planta da reforma do Mercado MunicipalEssas são algumas histórias do nosso Mercado Público Municipal que, se Deus quiser, vai ter sua fachada revitalizada pela Prefeitura Municipal de Porto Velho.
 
 
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