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Francisco Matias |
| Francisco Matias - Historiador e Analista Político Porto Velho - autor do livro "PIONEIROS" - 1998. E-mail: secaonorte@hotmail.com |
02/05/2012 - [11:27] - História
Por Francisco Matias(*)
1.O Golpe de Estado que instalou a ditadura militar no Brasil, desencadeado no dia 31 de março de 1964, mas instalado oficialmente a partir do dia 15 de abril, com a posse do marechal Humberto de Alencar Castelo Branco na presidência da República,somente chegou ao Território Federal de Rondônia no dia 24 de abril, como já foi citado nesta série. De repente, a esquerda porto-velhense se viu frente a frente com o capitão Anachreonte Coury Gomes, oficial de Cavalaria, que amanheceu naquela sexta-feira, 24 de abril, no centro da pequena cidade de Porto Velho à procura de um endereço, a sede do Jornal Alto Madeira, e de uma pessoa em especial, o jornalista Luís Tourinho. Seria esta a base inicial de sua estada na cidade e este, seu guia e auxiliar na missão que vinha cumprir. A partir desta data e nos trinta dias seguintes, a mão de ferro da ditadura iria começar a cair sobre os principais militantes da esquerda rondoniense. O primeiro alvo já estava fora de combate. Era o governador Abelardo Alvarenga Mafra, coronel do Exército, aliado do deposto presidente João Goulart, que já estava preso no Rio de Janeiro. O outro, o deputado federal Renato Medeiros, do PSP de Porto Velho, teve o mandato cassado e também estava preso, em Porto Velho. O governo do Território estava sendo exercido pelo secretário-geral Eudes Camponizi, que, instado a adoecer, afastou-se do cargo para assumir o capitão Anachreonte. Mas, faltavam alguns esquerdistas. E o peso das botas do capitão Anachreonte começou a se fazer sentir. O comerciante Miguel Chaquian, os médicos Floriano Riva e Rafael Vaz e Silva, o comerciante Jaime Castiel, os funcionários públicos Harry Covas, José de Oliveira Barroso -, conhecido como Carmênio, que estava nas funções de prefeito de Porto Velho -, Távora Buarque, e o ambulante Bola Sete foram presos. Os juízes de Direito João Alberto Paca e Joel Quaresma de Moura e o procurador do município advogado Franco Pinheiro Mártires, foram aposentados compulsoriamente.
2.Foi um “deus-nos-acuda” no meio político local. Alguns militantes de esquerda buscaram refúgio no partido governista, a Arena, dentre os quais, Dionízio Xavier da Silveira, o velho Dió, como estratégia de sobrevivência física e política. Contudo, o preso político que mais sofreu com a repressão foi o jornalista Inácio Mendes, proprietário do jornal O Combatente. Ele fez parte da lista de Anachreonte e foi preso em Porto Velho, a exemplo dos demais, na 3ª. Companhia de Fronteira, atual Brigada de Infantaria de Selva. Irreverente e ousado, Inácio Mendes, através do seu jornal, revela o que todos já desconfiavam: o capitão Anachreonte, todo-poderoso representante da revolução, ou do golpe militar, “é viado”, e estampou isto na primeira página do seu jornal, no final de abril. Não deu outra. À meia-noite o delegado de polícia, Dr. Sebastião Correa, invadiu a sede do jornal, disparou um tiro para cima, acusou Inácio Mendes de ter efetuado o disparo e o prendeu por tentativa de homicídio. Qualquer acusação era válida. Ficou quase um ano na prisão. Libertado, voltou à ativa com o seu jornal O Combatente e, em 1969, integrou a primeira Câmara de Vereadores de Porto Velho, eleito pelo MDB. No ano seguinte, ele se cacifa para disputar a convenção para ser candidato a deputado federal, mas perde a indicação do MDB, que lança o advogado Jerônimo Santana.
3.No entanto, a trajetória de Inácio Mendes não para por aí. Nem a perseguição que o regime militar lhe insiste em lhe fazer. Notadamente quando entra em rota de colisão com o prefeito de Porto Velho, o advogado Odacir Soares, no início da década de 1970. Ele é vereador. Faz oposição ao prefeito e ao regime e, através do seu jornal, divulga matéria na qual faz várias acusações ao prefeito e o chama de “viado de bigode”. É o bastante. Incurso na Lei de Segurança Nacional, é preso, é enviado a Belém, onde vai cumprir pena de dois anos de prisão. Libertado, retorna a Porto Velho e reassume sua vaga na câmara de vereadores. Não sem antes fazer mais uma: tão logo é solto, vai ao Bosque Rodrigues Alves, no centro de Belém, deixa-se fotografar ao lado de um homossexual e publica a foto na primeira página do seu jornal, em Porto Velho, com a seguinte manchete: “Este viado não tem bigode”, uma referência velada ao prefeito Odacir Soares. Não dá outra. É preso de novo. Desta vez pelo delegado federal Dr. Arthur Carbone. O jornal é fechado. Libertado, é autorizado a reabrir o jornal, mas não perde a veia da irreverência e de oposição ao regime militar.
4.Em 1972 publica denúncia contra o governador, coronel Marques Henriques, que teria autorizado a utilização de um trator do Território para realizar serviços em uma fazenda particular. O governador ordena o fechamento do jornal e a prisão de Inácio Mendes. Solto, consegue uma autorização judicial para reabrir o jornal. Mas, está sem apoio. Não é mais vereador e o clima político não lhe é favorável. Em 1975 muda-se para Manaus e de lá para o Território Federal de Roraima. Em Boa Vista monta o jornal O Combate. Mas, enfrenta nova pedreira do regime, se indispõe com o governador que manda fechar o seu jornal. Seis meses depois consegue reabri-lo, mas não tem mais espaço. Em 1977, aos 52 anos de idade, morre em Manaus, no ostracismo político e profissional. Sobre Inácio Mendes não se poderia afirmar que era um comunista orgânico. Talvez fosse mais um anarquista, em razão da forma como atuava. Mas, pode-se afirmar que ele foi um importante personagem a vida política, jornalística, partidária e social de Porto Velho e, como a maioria das pessoas nestas plagas do poente, foi injustiçado pela História. Ele era paraense. Em 1949 aportou em Guajará Mirim, como funcionário do Serviço de Proteção ao Índio, SPI. Foi na Pérola do Mamoré que fundou o jornal O Combatente e iniciou sua trajetória como jornalista, no ano de 1960. Este foi uma das vítimas do capitão Anachreonte, e do regime militar de 1964, em Rondônia e um dos esquecidos na memória histórica de Rondônia.
Historiador e analista político(*)
CIRO PINHEIRO - 22/06/2012
Acho que há outro engano: o juiz Antônio Alberto Pacca (não era João) não era desse tempo. Ele veio bem depois. No início dos anos 70 ele estava aqui.
salustiano ferreira junior - 02/05/2012
Só há um equívoco, caro historiador, o Floriano Riva citado não é o médico, mas seu pai, que foi Prefeito e Presidente da CERON nos anos 60.
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