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Montezuma Cruz |
| Editor de Amazônias. Colabora com Gente de Opinião, CaféHistória, Revista Momento, Supersitegood e Revista Sina. Trabalhou em Rondônia entre 1976 e 1986, onde editou o jornal alternativo Barranco. Repórter e redator dos jornais A Tribuna, O Guaporé, O Imparcial, O Parceleiro e O Estadão de Rondônia (depois do Norte). Repórter da sucursal da extinta Empresa Brasileira de Notícias (EBN). Correspondente do Jornal do Brasil, O Globo e Folha de S. Paulo em Porto Velho. Trabalhou ainda em órgãos de imprensa dos estados do Amazonas, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Maranhão, Paraná e São Paulo. Atualmente é repórter especial do Correio do Estado em Campo Grande (MS). E-mail: amazoniasopiniao@gmail.com |
12/07/2009 - [16:45] - Meio Ambiente
Prefeito de Moju, Iram Lima (PMDB): apoio à primeira fecularia da Amazônia /M.CRUZ Mandioca de Acará: 50 toneladas por hectare, em roça plantada no verde, com adubação orgânica e sem fogo /M.CRUZ Raimundo Brabo: trio da produtividade é um grande aliado contra o aquecimento global /M.CRUZ O modo de cortar a maniva, a seleção e o espaçamento garantem o banco de raizes paraense /M.CRUZ
Brabo Alves defende esse direito para quem não queimar capoeira e floresta. Eles são 600 mil no Pará.
MONTEZUMA CRUZ
Agência Amazônia
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MOJU e ABAETETUBA, PA – Seiscentos mil pequenos produtores do Estado do Pará têm condições de plantar mandioca, melancia, cupuaçu, açaí, coco e outras frutas, sem tocar fogo no roçado. Se assim o fizerem, serão candidatos a obter bônus de crédito de carbono na Amazônia. Em média, há uma equivalência de um hectare de roça plantada para cada família de agricultores familiares. Considerando-se uns 20% a mais de fogo controlado, estima-se que anualmente cerca de 720 mil hectares são torrados no sistema de derruba e queima em capoeiras de cinco a 15 anos, para uso das mais diferentes atividades produtivas.
A roça sem queima libera 70 toneladas de carbono por hectare, estima o pesquisador da Embrapa Amazônia Oriental, Raimundo Nonato Brabo Alves, 57 anos. Lembra que a Amazônia armazena entre 80 e 120 bilhões de toneladas de carbono, conforme relatórios de especialistas. Falta apenas lei do Congresso Nacional para disciplinar a matéria. Brabo Alves é coordenador do Núcleo de Apoio à Pesquisa e Transferência de Tecnologia da Embrapa Amazônia Oriental, em Belém.

Segundo ele, o trio da produtividade funciona em Abaetetuba, Acará, Cametá e Moju. Fora da região do Baixo Tocantins, já houve ações em Ourém e Santarém Novo, no nordeste do estado, e em Santarém, no Baixo Amazonas. Chegará ainda neste semestre a Baião, na PA-151.
Por enquanto, a roça sem fogo, processo “mais pedagógico que tecnológico”, está restrito a um colégio de pesquisadores, a algumas secretarias estaduais de agricultura e alguns parlamentares interessados no assunto. Um deles é o deputado Fernando Melo (PT-AC), membro da Comissão de Amazônia, foi ao Pará e conheceu o projeto trio da produtividade criado por Brabo Alves. Em seguida, procurou as secretarias de Agricultura e de Floresta do Acre, para projetar um programa de roça sem queima no estado.

50 toneladas por hectare
Numa área com duas tarefas (6 mil m²), agricultor José Magno dos Santos colheu mais de mil melancias com a roça sem queima. A pesquisa indica boa possibilidade da formação de roças orgânicas – mandioca sombreada com cupuaçu por exemplo.
Na Vila Moiraba, em Cametá, o descuido com a capina exigiu cuidados dos produtores. A mandioca rendeu 24 toneladas por hectare, quando a média ali é 16 ha. Assim, se vê que a meta não é alta produtividade, mas a melhoria da qualidade do solo. Em Acará, o maior município mandioqueiro do País, registrou-se um recorde: a mandioca alcançou a média de 50 t/ha e toda safra é vendida em Belém, a R$ 8 mil a tonelada.
Em Moju, a 68 quilômetros de Belém, o marketing proporcionado pela Embrapa e pela Emater ultrapassa os limites do estado. Satisfeito com o que vê, o prefeito Iram Lima (PMDB) diz que outros prefeitos paraenses e do nordeste brasileiro já visitaram o seu município para observar o resultado da roça sem queima. Lima apoiou a instalação da Fécula Amazon, a primeira indústria do setor na região norte brasileira. “Um empreendimento dessa envergadura é motivo de honra para nós, porque insere Moju e o Pará na lista das regiões que conseguem produzir com sustentabilidade, sem agressão ao ambiente”, afirma Lima.
“Uma roça sem fogo,
bem cuidada, vale por três”
ABAETETUBA e MOJU – No trio da produtividade, uma roça sem fogo bem cuidada vale por três, costuma dizer Brabo Alves. Restos da capina permanecem na área, servindo para adubação com abundância de cálcio, magnésio e enxofre. Roçados de mandioca da variedade taxi, com oito meses já alcançaram 15 toneladas por hectare, quando o normal é 10 t.

Seleção de manivas com idade de oito a 12 meses da parte mediana da planta, eliminando a parte inferior fibrosa – que corre o risco de não brotar – e a parte superior esverdeada – que dá origem a plantas raquíticas. A isso se soma o plantio com o espaçamento de 1 m x 1 m e capinas nos primeiros 150 dias.
Pequenos produtores são campeões de produtividade quando fazem boa seleção, Sebastião Mota, da Comunidade Bom Sossego, em Moju, relata: “Não só dobramos, mas triplicamos a produção”. Em vez do espaçamento de 1 x 1, ele adotou 60cm x 60cm, com o qual obteve 20 mil covas, uma superpopulação de manivas.
É um processo simples, que resume 60 anos pesquisas, lembra Brabo. “A falta de capinas implica perdas até 90% na colheita e representa 35% do custo de produção”. “O plantio é feito no início das chuvas ou no começo da estiagem para locais onde as chuvas são bem distribuídas por todo o ano. A profundidade das covas é de 10 cm, colocando-se as estacas na posição horizontal”, demonstra.
O pesquisador aplica o teste de São Tomé, que faz parte da metodologia. Em média, ele pede a cada produtor que plante apenas uma tarefa (3 mil m²) no trio. O teste permite uma comparação com o sistema antigo. O trio adota o corte reto das manivas, nunca em bisel ou bico de gaita, e no tamanho de 20 cm (um palmo), contendo de cinco a sete gemas. “Podemos chegar a 30 t, ele prevê.

A produção de mandioca duplica ou triplica, somente com a informação, acredita Brabo Alves. E aponta um grande bem: no roçado sem fogo, as manifestações de invasoras ocorrem em apenas um terço da área.
O método se incorpora à responsabilidade social, porque é aplicado em comunidades tradicionais. Segundo o presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Moju, Pedro Libório, além de ser ouvida, a entidade é hoje referência nacional. “Cumprimos o calendário agrícola: temos tempo de plantar e de colher”. (M.C.)
“Quero usufruir em vida
de uma parte do que tenho”
MARAPANIM, PA – De longe se vêem bonitas titônias intercalando as lavouras de pimenta-do-reino de João de Souza Barros, 62 anos, proprietário do Sítio Santa Lúcia. Conhecida por flor da Amazônia, essa pequena árvore é recicladora de fósforo. No lado direito da casa dele, crescem árvores de mogno. É um dos mais antigos no Projeto Tipitanga. Há nove anos aderiu ao projeto, mas reconhece: “Se tivesse começado com essas técnicas há mais tempo, estaria bem melhor”. Ao contrário do tradicional linguajar de pequenos agricultores, que admitem “deixar terras produtivas e bens para filhos e netos”, Barros desafia a si próprio: “Dou o melhor de mim para usufruir em vida de uma parte do que faço”. Um filho dele trabalha na Universidade Federal do Pará.
“Eu trabalho das seis da madrugada às seis da tarde; só paro para almoçar e janto quando termino tudo. Entrei aqui para tirar a prova dos nove”, conta Barros. O sítio fica entre os municípios de Marapanim e Igarapé-Açu. Dos 90 hectares, ocupa atualmente 20ha com plantios diversificados. Este ano já colhi feijão e capinei as áreas de açaí e cupuaçu. Os primeiros 120 pés de coco-anão estão com seis anos e já plantou mais 80.
Portando apenas o documento da associação, inscreveu-se no Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), numa agência do Banco da Amazônia para obter R$ 11,9 mil. Aplicou o dinheiro nas lavouras de pimenta-do-reino, restando pagar R$ 7 mil, até 2014. Dos oito pimenteiros do primeiro grupo restaram apenas dois, ele conta. Barros reclama do tamanho da dívida “para um giro de R$ 3 mil”.
É certo que choveu demais na região, entretanto, nem ele, nem os pesquisadores concluíram se as cinco mil covas das variedades de mandioca Mari e Poti se perderam em conseqüência de podridão (Phytophthora drechsleri) das raízes da mandioca ou resistência vegetal. O solo não ficou encharcado. O comunicado técnico 204, assinado pela doutora em genética e melhoramento Alejandra Semíramis Albuquerque diz que a cultivar BRS Poti se restringe aos cultivos em terra firme do nordeste paraense, em áreas onde ocorre podridão. O sitiante vai fazer um manejo intensivo para recuperar o prejuízo. (M.C.)
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Fonte: Montezuma Cruz - A Agênciaamazônia é parceira do Gentedeopinião
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